Palavras do Eduardo Jorge - A adaptar-me à nova casa...

Cá estou eu a conhecer os cantos á minha nova casa. 

 

Como previa esta nova etapa da minha vida não tem sido fácil. 1º dia foi o mais difícil e o momento que mais mexeu comigo pela negativa foi a entrada no refeitório para jantar. Durante o dia estive a arrumar a "casa"com a ajuda dos meus afilhados e não houve tempo para pensar ou sentir.

 

Mas ao deitar sentia-me perdido, com a cabeça "oca", sem forças sequer para raciocinar. Não me recordo de alguma vez ter passado por algo do género. Foi muito estranho. 

 

Desejei como nunca a chegada da meia noite para me virarem e refugiar-me no sono. Felizmente consegui. 

 

Acordei algumas vezes durante a noite mas consegui repousar o suficiente para acordar com outras forças. 

 

O segundo dia serviu para explorar com outros olhos todo o espaço e começar a criar rotinas. Momento das refeições já foi encarado com outra naturalidade, assim como o meu relacionamento com o espaço. No 3º dia comecei a aceitar a mudança.

 

Depois do forte impacto emocional causado pela institucionalização, o processo de adaptação tem evoluído dentro da normalidade. Embora a instituição tudo esteja a fazer para me proporcionar uma adaptação em pleno, continua a ser complicado para mim, pois a perda do vínculo afectivo com as pessoas que faziam parte do meu círculo social e da minha comunidade, assim como o meu desenraizamento e a sensação de perda de identidade, e de estar a sofrer uma punição continuam presentes. 


Mas também sei que já tinha uma história antes de entrar para a estrutura residencial. Agora é dar continuidade a essa história e aos meus desejos e ambições.

Não vim para aqui, para ver passar os dias sem perspectivas de futuro. Quero continuar a sentir-me útil, por isso já comecei a definir objectivos e metas a atingir.

Bem sei que as necessidades funcionais de uma estrutura residencial e as necessidades individuais dos seus clientes nem sempre são coincidentes e compatíveis.

No que toca ao Centro de Apoio Social daCarregueira (CASC) sinto-me tratado com muito respeito e carinho por todos. Um dos exemplos que comprovam esse respeito acontece quando solicito algo, pedem-me que seja eu a guia-los e não o oposto.

É muito bom sentir que respeitam a minha individualidade. E não se passa somente comigo, noto o mesmo procedimento por parte dos colaboradores com todos os outros idosos.

No CASC, o “cuidar” não se resume somente a uma prestação de serviços, envolve também uma relação afectiva assente no interesse e consideração por nós enquanto pessoas. Além do factor bem cuidar, existe a vantagem do espaço ser novo e possuir excelentes condições.

O CASC possui duas valências: Apoio Domiciliário já existente há alguns anos e estrutura residencial com capacidade para 53 idosos recentemente inaugurada. Maioria dos quartos que compõem a estrutura são individuais.

São quartos amplos com wc adaptado e privativo, ar condicionado, camas e colchões adequados e possuem duas portas, sendo uma delas de vidro com acesso ao espaço exterior.

Quanto á alimentação embora não seja dos mais exigentes, posso adiantar que possui sabor e as sopas não costumam ser o que sobra do almoço com o acréscimo de uma grande quantidade de água como geralmente acontece neste género de instituição.

Uma certeza tenho, não encontraria melhor Instituição que esta para me receber, por isso resta-me olhar em frente e continuar a minha história e luta.

 Fonte da Notícia: Blog «Tetraplégicos» Eduardo Jorge

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