quarta-feira, 27 de maio de 2015

França debate o acompanhamento sexual a pessoas com deficiência


Com o recente lançamento do livro "En Dépit du Bon Sens" (em português, "Apesar do Bom Senso"), autobiografia de Marcel Nuss, célebre militante pelos direitos das pessoas com deficiência, a França voltou a falar sobre a assistência sexual a pessoas com necessidades especiais. A atividade, que já foi adotada em alguns países europeus, é proibida na França porque é considerada uma forma de prostituição.


Marcel Nuss sofre de amiotrofia espinhal, uma doença degenerativa, que compromete gravemente o sistema respiratório e atrofia os músculos.

Em seu novo livro, o militante descreve seus sessenta anos de luta, de maus tratos médicos e administrativos. Também denuncia a incompetência de políticos no tratamento de questões relacionadas aos direitos e ao bem-estar das pessoas com deficiência física na França.

 Na obra, Nuss também fala da criação da Associação Para a Promoção do Acompanhamento Sexual (Appas), na cidade de Erstein, no nordeste da França.

"A assistência que propomos tem o objetivo de ajudar as pessoas com deficiência a desenvolver sua autoestima e sua confiança. Isso permite que elas descubram seus próprios corpos", disse, em entrevista à RFI.

 A ideia divide os franceses, encontra resistência de muitas organizações e fica estagnada no âmbito político. Entrevistada pelo jornal Libération, a presidente da associação Femmes pour le Dire, Maudy Piot, que milita pelos direitos das mulheres, classifica o trabalho dos acompanhantes sexuais de pessoas com deficiência física como um "comércio do corpo".

"Uma prestação sexual com hora e dias marcados! Onde está o desejo? Onde está o amor?", questiona. O governo francês lava as mãos quando a questão vem à tona.

 Em 2011, o deputado do partido UMP Jean-François Chossy apresentou na Assembleia francesa um relatório onde ressalta a necessidade "de todas as pessoas receberem a assistência humana necessária para a expressão de sua sexualidade" e onde faz um apelo por um debate ético e jurídico sobre a questão.

Em 2012, o presidente François Hollande prometeu promover um debate sobre o acompanhamento sexual a pessoas com necessidades especiais na sociedade francesa. Em 2013, o Comitê Consultativo de Ética francês se pronunciou sobre a questão se manifestando sobre o "princípio da não utilização comercial do corpo humano". disseesde então, a discussão está estagnada.

  Atividade é reconhecida em sete países europeus, EUA e Israel 


 A assistência sexual já é uma realidade em Israel e nos Estados Unidos, onde o debate sobre a atividade também é intenso. Em 2012, o longa The Sessions  (As Sessões), do diretor Ben Lewin, contribuiu para popularizar a prática no país.

Na Europa, a atividade é reconhecida na Alemanha, Holanda, Dinamarca, Suíça, Áustria, Itália e Espanha. Embora ilegal, o acompanhamento sexual não deixa de acontecer na França.


Várias associações francesas relatam receber pedidos frequentes de pessoas com deficiência física que procuram acompanhantes sexuais. Em muitas organizações, os contatos dos acompanhantes são colocados à disposição dos interessados.

O trabalho e a militância dos assistentes ajudam a desmistificar a atividade. Em vídeos publicados na internet, Jill Prêvôt-Nuss, assistente sexual da Appas e esposa de Marcel Nuss, define o acompanhamento sexual como uma forma de terapia corporal e psicológica que não pode ser banalizada.

"As pessoas com deficiência são geralmente tocadas todos os dias por dezenas de mãos para serem vestidas, lavadas, carregadas, alimentadas, mas nunca acariciadas sexualmente.

A sexualidade é um direito fundamental que diz respeito à saúde e a liberdade de cada um", defende. Com base no interesse crescente e desafiando a justiça francesa, a Appas promoveu, em março, a primeira formação de assistentes sexuais no país em Erstein, perto de Estrasburgo, no nordeste da França.

O evento quase foi cancelado de última hora, depois que a direção do hotel onde seria realizado alegou temer ser processada por proxenetismo. Mas uma decisão do tribunal de Estrasburgo obrigou o estabelecimento a acolher o evento por considerá-lo como uma "formação pela educação sexual geral".

"O que defendemos é um direito fundamental à vida afetiva e sexual para as pessoas com deficiência. E sobretudo feito por pessoas e para pessoas que fazem essa escolha livremente. É preciso que todos entendam bem isso", explica Jérémy Kolbecher, um dos administradores da Appas.

  No Brasil, ainda é tabu 


 Mas, em muitos países, como o Brasil, a assistência sexual não é nem mesmo conhecida. A sexualidade das pessoas com deficiência física, para os brasileiros, ainda é tabu, explica a jornalista e consultora em inclusão e diversidade, Leandra Migotto Certeza.

"Há essa ideia de que as pessoas com deficiência são assexuadas. A questão é pouco discutida mesmo no meio acadêmico e entre os militantes", observa. Leandra ressalta que o pior preconceito é o que acontece dentro das famílias das pessoas com deficiência.

"É preciso que todos estejam cientes que a sexualidade não deixa de existir porque você a pessoa tem uma deficiência. Mesmo estando em uma cadeira de rodas ou com tetraplegia, as pessoas têm desejo sexual", ressalta.

 O psicólogo, fundador do blog Inclusão Diferente e autor do livro Sexualidade e Deficiência, Damião Marcos, conta que muitas famílias resolvem a questão da experiência sexual de parentes com deficiência de forma inapropriada.

"Alguns familiares levam seus filhos ou filhas para prostíbulos. Como no Brasil não existe esse acompanhamento sexual para as pessoas com deficiência, as famílias que entendem essa necessidade não têm outra saída", conta. Fantasias Caleidoscópicas Pensando nesse vácuo sobre a sexualidade das pessoas com deficiência no Brasil, Leandra criou, em parceria com a fotógrafa Vera Albuquerque, o projeto Fantasias Caleidoscópicas, um ensaio fotográfico sensual de pessoas com deficiência física.

"O objetivo é desmistificar o tabu da sexualidade da pessoa com deficiência e também de mostrar a realidade dessa beleza e dessa estética."


As fotos são expostas com os relatos dos modelos: homens, mulheres e casais hétero e homossexuais. Além disso, o projeto também conta com um documentário e oficinas educativas interativas sobre saúde sexual. Fantasias Caleidoscópicas foi premiado no 6º Congresso Internacional "Prazeres Dês-Organizados – Corpos, Direitos e Culturas em Transformação”, em Lima, no Peru, em junho de 2007. Leandra e Vera trabalham agora na sequência do projeto e buscam patrocínio para a realização dele.

  TAGS : FRANÇA - DEFICIENTES - SEXO - POLÊMICA 


  Fonte da Noticia: Veja Aqui

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