segunda-feira, 25 de junho de 2012

Investigadores partilham projetos e conhecimentos sobre Cabo Verde e Guiné Bissa


História, recursos naturais, saúde e mesmo a atual situação militar na Guiné-Bissau, reúnem em Lisboa cientistas portugueses e estrangeiros em Colóquio Internacional sobre Cabo Verde e Guiné-Bissau - Percursos do Saber e da Ciência.
Investigadores debatem em Colóquio Internacional muitos dos trabalhos científicos que tem vindo a desenvolver sobre Cabo Verde e a Guiné-Bissau.
O colóquio Internacional com organização do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT) IICT e do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP-UTL) pretende criar uma plataforma de partilha de informação e conhecimento sobre Cabo Verde e a Guiné-Bissau nas mais diversas áreas do saber.
Ana Cristina Roque, investigadora do IICT explica que: «temos praticamente representantes de todas as áreas disciplinares, portanto, história, sociologia, linguística, património e depois as áreas das ciências naturais, a biodiversidade, a questão das alterações climáticas, os projetos de desenvolvimento e cooperação nas várias áreas, da saúde, da alimentação».
«Praticamente todas as áreas disciplinares estão aqui representadas, umas em maior grau do que outras, mas isso também corresponde ao próprio trabalho que os vários investigadores e as várias associações estão a desenvolver e que não tem o mesmo peso em todas as áreas disciplinares», refere.
No encontro, os investigadores refletem sobre a história partilhada dos dois países e as transformações que têm vindo a ocorrer ao longo do tempo.
A investigadora explica que: «esperamos que também saia daqui essa comparação entre dois países, dois territórios que historicamente têm uma ligação muito profunda, mas que depois historicamente têm problemas específicos de cada um desses territórios que terão de ser tratados de forma diferente. Por exemplo, as alterações climáticas, a questão da desertificação e outras questões que se põem de forma completamente diferente num e noutro território. E dai que essa comparação possa vir a ser salutar, até pelo que se está a fazer e como se está a fazer».
Os investigadores pretendem contribuir através da investigação científica em curso para um reforço da cooperação e do desenvolvimento dos dois países.
«Através da cooperação e do envolvimento dos próprios países nestes mesmos projetos. Aliás há projetos que vão ser aqui apresentados que resultam já de parcerias diversas entre instituições portuguesas e instituições seja na Guiné seja em Cabo Verde e, portanto, é nessa troca de saberes que este espaço também tem importância», afirma.
Um exemplo de sucesso de cooperação científica tem sido a elaboração da História de Cabo Verde. Ana Cristina Roque explica que este projeto «resultou da colaboração entre investigadores portugueses e cabo-verdianos e constitui um exemplo exemplar do que é a cooperação entre os dois países em termos de investigação e para a história do país».
Mas acrescenta que «há outros exemplos, como o caso de um projeto que vai ser aqui apresentado que é o Campus Madrugada, que é na área da saúde e que está a ser desenvolvido também com a Faculdade de Farmácia na Guiné».
Guiné-Bissau e Cabo Verde encontram na comunidade científica portuguesa um aliado para que não haja qualquer vazio nos domínios da investigação científica. «Eu não sei se haveria vazio, mas haveria certamente uma parte que não seria tão bem cumprida», afirma a investigadora do IICT.
«Porque nós temos um passado comum com Cabo Verde e com a Guiné-Bissau e mais do que um passado comum, também uma história de investigação comum. Portanto, as instituições portuguesas e designadamente o IICT tem um papel relevante neste contexto. As outras também terão cada uma na sua área da especialidade, mas neste caso em particular o Instituto tem uma componente bastante importante», afirma.
As vivências de hoje são muitas vezes o reflexo do passado, é o que o investigador Álvaro Correia de Nóbrega tenta refletir ao falar sobre o que leva os Militares na Guiné-Bissau a intervir no processo da construção da democracia.
Álvaro Correia de Nóbrega, investigador do ISCSP-UTL explica que no seu trabalho tenta «refletir e abordar esta questão: porque é que os militares ao longo dos diversos anos têm posto sempre a reconstrução do país e a sua normalização em causa? E aliás, como sucedeu recentemente com esta ultima crise, em que o país já avançava para um período de algum crescimento económico e de repente acontece um golpe de Estado».
Á questão que coloca, o investigador responde que «do ponto de vista de uma explicação fria e racional, não há justificação para os militares. Estão a ser pagos, não é? Portanto, tratava-se de refletir sobre quais as razões que efetivamente fazem com que eles tenham este papel de grande perturbação e que é periódico».
E o investigador chega a diversas razões. «Para já temos que buscar as razões na própria sociedade guineense e na sua fragmentação e nas lutas políticas que ocorrem no seio do país. É um país com uma grande fragmentação, com grupos que competem pelo poder político e pelos recursos que o poder político concede. Nós estamos perante um Estado que tem do ponto de vista da riqueza nacional, um sector privado dinâmico, portanto, o Estado concentra grande parte da riqueza nacional, por um lado. Por outro lado, o Estado permite que as atividades ilícitas, mas que são altamente rentáveis, possam decorrer com normalidade. Portanto, o controlo do Estado é fundamental por isso», afirma o investigador.
E por isso os grupos competem pelo poder para manter privilégios. «Há também uma certa tradição de exclusão no meio disto. Não é uma sociedade suficientemente inclusiva», explica Álvaro Correia de Nóbrega.
«Há questões patrimoniais que fazem com que os grupos requeiram, exijam muitos recursos para manter todo o funcionamento e toda a sua base de apoio social. E por conseguinte, esta luta pelo poder acaba por transbordar para a área militar. Tanto mais grave, que no caso da Guiné, o poder político não consegue controlar o poder militar porque este poder militar que existe com esta configuração, seio de um conjunto de confrontos militares, tem um grande lugar de autonomia do poder político».
Para este investigador é a falta de organização do Estado que mantém a Guiné-Bissau numa situação de fragilidade social.
«É um processo, para mim, de longa duração, porque a base sociocultural é muito complexa, estamos a falar de uma sociedade que contem grupos muito diversos no seu interior e com quadros de valores também próprios e que não estão propriamente adaptados ao modelo de Estado moderno que foi criado a partir do fenómeno colonial», explica.
«Este passo para alguma normalização passa de facto por uma boa governação. Agora é preciso criar as condições para que essa boa governação possa acontecer e isso na minha perspetiva é um processo de longa duração, precisamente, por causa da tal fragmentação política do país e das sucessivas lutas pelo poder que são desgastantes e que absorvem muita da energia da classe politica. A classe política está muito empenhada nestas lutas porque não há instituições, que designo por amortecedores, que amorteçam as derrotas eleitorais. Portanto, quem perde as eleições fica com uma situação económica por vezes complicada», afirma o investigador.
Para o especialista a solução, nesta fase, passa por um forte empenho das organizações internacionais.
«Geralmente o Estado preenche poucos funções e concede um destaque especial à segurança, mas tudo o que contribua para que o Estado possa consolidar a sua ação, possa aumentar o seu grau de organização e bom funcionamento e que cumpra as suas funções, é bom. E para isso existem naturalmente os parceiros internacionais e as grandes organizações que podem contribuir fazendo uma ação também pedagógica e procurando conhecer bem quais são as dificuldades que existem no terreno», afirma.
Mas Álvaro Correia de Nóbrega alerta ainda que «às vezes fazem-se projetos que são bem-intencionados, mas que depois por falta de conhecimento a realidade e do modo de funcionamento das estruturas sociais presentes, acabam por falhar».
Durante três dias os investigadores vão abordar e debater as mais diversas áreas disciplinares do conhecimento e desta forma fazer mais luz sobre a situação e a evolução de Cabo Verde e da Guiné-Bissau.

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